Em 1895, os irmãos Lumière, Auguste e Louis deram inicio à uma revolução, inaugurando a exibição cinematográfica ao mundo. Era a primeira vez que o público se encontrava com aquilo que apenas a memória era capaz de proporcionar. Naquela exibição, Georges Méliès ficou fascinado com a inovação e ofereceu comprar o equipamento dos irmãos inventores, uma oferta negada “em nome da ciencia”, mas o ilusionista não desistiu e conseguiu um outro fornecedor e no ano seguinte já estava exibindo algo nunca antes visto. Em seus filmes fantáticos ele deu origem aos efeitos visuais, dando mais um passo na revolução cinematográfica, com o uso apenas da ingênua criatividade. Ano após ano, mentes brilhantes se aventuraram nessa revolução, criando e adaptando ideias, inovando a forma de contar histórias e de criar novas memórias numa sala de cinema. Criatividade e inovação cientifica foram os principais combustiveis que transformaram a história da fotografia numa grande industria do entretenimento, mas essa revolução se tornou a norma e agora uma nova revolução se inicia.
Nesse ano de 2025 o termo “Inteligência Artificial” se tornou comum no nosso cotidiano, como era esperado, as ferramentas autonomas e generativas irão se estabelecer como a invenção mais importante da história da humanidade. A 5 anos atrás era raro ouvir como a I.A. foi capaz de mudar a vida de alguém, pois não havia nada muito útil, para o cidadão médio global, que uma ferramenta assim poderia fazer. Atualmente, porém, tudo mudou. Ferramentas de inteligência artificial, como Modelos de Linguagem e Geradores de Imagem, parecem estar presentes em todos os lugares e isso é apenas o ínicio de uma grande revolução cientifica, cultural e criativa. Assim como o cinema (considerarmos tudo aquilo que inclui uma narrativa audiovisual coesa), o fenomeno da I.A. terá grandes mentes brilhantes para inovar seu uso e possibilitar essa revolução alcançar novos patamares.
O Cinema em 100 anos.
Há mais de 100 anos atrás, os irmãos Lumière e Méliès jamais teriam imaginado que um dia um filme seria lançado globalmente em mais de 55 mil salas de cinema, como foi com “Avengers: Endgame”, na mesma proporção que nós jamais poderiamos imaginar como seria o cenário audiovisual mundial para daqui 100 anos. Para sermos realistas, é dificil predizer como será até mesmo os próximos 10 anos, mas assim como no passado, mentes brilhantes irão pavimentar os caminhos dessa nova revolução, através do uso criativo e inovador dessas novas ferramentas. É a partir da inquietude da imaginação criativa que podemos descobrir todas as possibilidades do uso da Inteligencia Artificial na criação do audiovisual.
É certo que um dia veremos filmes inteiros criados com modelos generativos. Isso é tão certo que empresas como a Lionsgate já estão investindo milhões de doláres nessa tecnologia, para otimizar a produção cinematográfica de suas obras, reduzindo custos e aumentando as possibilidades técnicas. Será tão comum o uso de I.A. em produções, que passará a ser a norma. Até o final de 2025, quase toda produtora audiovisual do mundo terá trabalhado ao menos uma vez com ferramentas generativas. Em 2026 essa tendencia será ainda maior, demandando mais profissionais habilitados para criação de filmes em IA. Se em breve, filmes do circuito de exibição, assim como Vingadores, serão feitos totalmente com IA, obviamente essa será a ferramenta que mais irá evoluir nos próximos anos e os profissionais que a dominam serão altamente requisitados por produtoras e distribuidoras de todo o mundo, mas essa é a visão rasa e óbvia dessa revolução. Para ver além disso é necessário um pouco mais de criatividade e inovação.
Quando falamos em cinema, estamos falando de uma experiencia especifica. Cinema não é apenas o momento que você saí de casa e vai à sala de exibição escura para assistir um filme por uma hora e meia, ou até duas horas, comer pipoca, beber um refrigerante e voltar para casa tarde da noite. Quando paramos para assistir um filme na TV da sala, em um serviço de streming online, também estamos consumindo aquilo que chamamos de cinema. Quando assistimos uma novela à tarde, ao lado de familiares, também estamos expostos à uma experiencia cinematográfica. Cinema (do grego: κίνημα; “movimento”, e γράφειν, graphein; “registrar”), conhecido também como Sétima Arte e, em alguns contextos, cinematografia, é um termo que pode ser definido como a técnica e a arte que reproduz fotogramas de forma rápida e sequencial, criando “ilusão de movimento”1. Cinema é uma ilusão. E como ilusão ela é capaz de criar algo mais profundo do que apenas algumas horas de deslumbre visual, ela cria memória.
Para o cérebro, um filme não é literalmente confundido com a realidade, mas ele é processado como um fluxo sensorial contínuo suficientemente “real” para recrutar quase os mesmos sistemas perceptivos, motores, emocionais e de compreensão narrativa que usamos no mundo físico. Filmes ficam muito longe de serem “meras distrações”: ao serem codificados como experiências sensoriais contínuas, eles criam traços de memória que podem — e frequentemente moldam — esquemas mentais, juízos, emoções e até escolhas de comportamento. Estudos de fMRI mostram a rede de modo-padrão e o hipocampo trabalhando juntos para “editar” as cenas em unidades que o cérebro consolida; após a sessão, essas lembranças podem alterar atitudes políticas, reforçar estereótipos, induzir empatia ou, se for o caso, aumentar agressividade.
Ao entender o impacto cognitivo de uma obra cinematográfica, podemos perceber como as ferramentas de inteligência artificial serão capazes de criar experiencias ainda mais imersivas, realistas e personalizadas. Com a automação de roteiros, audio e imagem, poderiamos criar filmes tão imersivos que seria possível conversar com os personagens da trama, alterarmos o curso da narrativa e vivenciar finais inimagináveis de uma mesma aventura. Filmes seriam como jogos, com uma narrativa guiada e extremamente imersiva em tempo real e como consequência, milhões de influenciadores irão mergulhar em narrativas criadas por diretores e escritores criativos para transformar suas aventuras em espetáculos transmitidos ao vivo para milhares de espectadores. Algumas experiencias cinematográficas irão flertar com um “Teatro 2.0”, onde atores se encontram em um universo simulado para gerar filmes em tempo real, com efeitos visuais que deixariam qualquer blockbuster de 2025 “no chinelo”. Você poderá entrar em um filme interativo junto com seus amigos e juntos tentar descobrir quem é o assassino de uma grande história de crime policial ou apenas gravar essa aventura juntos e lança-la online em plataformas de streaming populares.
Em até 10 anos o cinema não será apenas uma sala de exibição, será toda uma cultura onde milhares de diretores criam livremente seus próprios filmes. Haverá uma geração de cineastas que jamais terão alguma limitação de orçamento impedindo-os de criar seus filmes. Será necessário apenas ligar uma tela e logar em seu perfil na plataforma de criação de filmes, ou de simulação de mundos, gravar suas cenas e editar o filme. Ou configurar uma narrativa preparada para a imersão interativa do público, assim como um jogo. Uma geração de criadores que irão moldar um novo imaginário popular, que irão transformar nossa cultura, que irão criar memórias e experiencias comuns à milhares de pessoas, unificando ainda mais ideias e ideais.
Em até 100 anos, acredito que seremos capaz de uma imersão cinematográfica tão realista quanto a tecnologia imaginada pelas Irmãs Wachowski quando dirigiram “Matrix”. Onde o limiar da percepção do que é real já se torna completamente invisível. Atualmente já podemos imaginar como seria uma tecnologia assim: uma inteligência artificial é treinada para entender toda a linguagem elétrica dos neuronios de nosso cerebro e a partir de engenharia reversa, será possível usá-la para gerar estimulos para os 5 sentidos para garantir total imersão à narrativa, permitindo até mesmo que sonhos sejam multiplayer, mas como podemos chegar à esse nível de progresso tecnológico cinematográfico?
Desenvolvendo o Cinema do futuro.
Nos próximos 10 anos, quero explorar os caminhos inovadores que a tecnologia aliada à criatividade podem proporcionar, para isso é importante ter uma visão de um modelo de trabalho e de criação de filmes ideal: Um método coeso e automatizado, de baixo custo e de alta qualidade para o desenvolvimento de produtos audiovisuais, do roteiro à exibição, utilizando todas as ferramentas disponíveis no mercado.
Criar um filme sempre se inicia com uma ideia, que evolui para uma logline, para um argumento, para um roteiro e assim em diante. O processo cinematográfico é como uma cascata de processos técnicos criativos, onde a qualidade de cada processo determina a eficácia do próximo. Todos os processos na pipeline de cinema geram custos. Se você considerar o método atual de produção, um roteiro de cinema irá lhe custar em torno de 20 mil reais, mas aqui iremos imaginar o modelo ideal para o que pensamos anteriormente, onde uma geração de diretores poderão criar filmes sem uma limitação orçamentária.
Nesse cenário ideal hipotético, autores poderão escrever e criar os filmes sozinhos, ou com a ajuda de atores e outros colaboradores, gerando um produto de valor que poderá ser comercializado para a geração de lucro. Logo o esforço de trabalho do roteirista deixará de ser vender o roteiro, mas sim de vender o filme pronto, já para o público final. Pensando nesse cenário, veremos que roteiristas que também são bons diretores, irão se destacar na produção dos filmes.
Utilizando ferramentas de inteligência artificial, o roteirista poderá escrever sua ideia, argumento, logline e escaleta e deixar o trabalho mais tedioso de formatação do roteiro inicial para um modelo de linguagem. Após revisar e re-editar o roteiro, ferramentas de IA irão, automaticamente, separar todas as cenas do roteiro para rodá-los numa simulação crua, assim dando inicio ao trabalho de direção cinematográfica.
Seria ideal que o roteiro já fosse convertido em uma timeline de montagem, separada inicialmente por cenas e numa plataforma online os colaboradores (caso tenha) possam acessar a timeline e entrar em cada cena. Cada cena na timeline deve ser uma cena 3D, onde é possível gerar o cenário, editar os elementos, mudar a iluminação e até editar a atuação dos personagens. Atores reais utilizando óculos VR (como o Apple VisionPro) podem interpretar dentro dessas cenas 3D interativas e deixar suas performances já arquivadas no tempo e no corte certo.
Modelos Generativos de Imagem irão fazer o trabalho de utilizar controlnets para gerar uma imagem realistas desses mesmos atores, mas dentro da roupagem do filme, roupagem essa que poderá ser editada pelo figurinista posteriormente. Essas cenas 3D darão espaço à toda produção trabalhar remotamente, em tempo real. O diretor de fotografia poderá editar os angulos, planos e iluminação do filme inteiro até mesmo minutos antes do lançamento oficial, ou até mesmo depois, quando, por exemplo, o filme for relançado numa versão comemorativa com uma roupagem de natal.
Todos os processos precisam estar dentro de uma mesma plataforma. A edição, montagem, efeitos visuais, animação 2D e 3D, assim como a performance dos atores, câmeras, iluminação. Atualmente a ferramente que vejo como maior promessa para esse tipo de interação é a Unreal Engine, uma ferramenta para desenvolvimento de jogos que tem se destacado na produção cinematográfica.
Após os atores (reais ou IA) interpretarem seus personagens e salvarem sua performance, após o diretor junto com o diretor de fotografia posicionar as cameras e ajustar a iluminação, após a direção de arte decorar e refinar o visual de todas as cenas, os músicos podem entrar nas cenas para criar trilhas sonoras binaurais, sonoplastas vão adicionar e desenhar o som das cenas como nunca antes, com a possibilidade da reflexão de ondas sonoras simuladas como na vida real utilizando Ray-tracing sonoro. Montadores poderam refinar a edição do filme, e artistas de efeitos especiais poderão acessar as cenas para criar simulações e animações especificas para cada cena. Após tudo pronto, o diretor poderá renderizar o filme para que fique ainda mais realista, utilizando um misto de materiais neurais, gausian-splating e modelos generativos.
Esse processo de desenvolvimento poderá ser rápido, dentro de alguns dias um longa-metragem inteiro já estaria pronto para sua primeira exibição, mas esse não seria o único modelo posível. Outra maneira de criar um filme de IA seria mais parecida com uma sessão de teatro, tornando todo o processo ainda mais rápido. Atores performam todas as cenas em sequencia dentro de uma arena cercada por algumas câmeras, com esses dados será possível gerar uma cena 3D animada e editável e a partir disso os mesmos passos podem se repetir, ou até mesmo serem gerados automaticamente a partir de referências ou um prompt detalhado. Assim, grupos de teatro poderão gerar produtos audiovisuais de forma rápida e sem muitos custos. Esse processo permite por exemplo que seja criado um filme de improvisso, apenas com o talento de um grupo de bons atores.
Portanto, ao olharmos para o futuro do cinema, percebemos que a revolução iniciada pelos irmãos Lumière continua viva, agora alimentada pela inteligência artificial e pelas possibilidades ilimitadas da tecnologia imersiva. Mais do que nunca, criatividade e inovação serão as forças impulsionadoras dessa nova era audiovisual, em que filmes deixarão de ser apenas experiências passivas para se tornarem aventuras interativas, personalizadas e profundamente impactantes. Estamos à beira de uma transformação radical, um novo horizonte onde o limite entre realidade e ficção será cada vez mais tênue e o cinema continuará cumprindo sua missão essencial: criar memórias, moldar culturas e desafiar nossa imaginação.
Referências:
1: brasilescola.uol.com.br/artes/cinema
